Eng. Prof. Dr. Roberto Kochen - GloboNews - 31-01-2019 - Descomissionamento de Barragens e Disposição/Tratamento de Rejeitos da Mineração - Janeiro/2019

Eng. Prof. Dr. Roberto Kochen - GloboNews - 31-01-2019 - Descomissionamento de Barragens e Disposição/Tratamento de Rejeitos da Mineração - Janeiro/2019




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Profº, acabamos de ver os tipos de barragens. Essa barragem que é a montante, a de Brumadinho, isso na Europa e EUA não se constrói à pelo menos 20 anos. A Legislação brasileira ainda permite que se construa esse tipo de barragem. Não demorou para a legislação mudar, ser alterada ou discutir-se com mais profundidade sobre esse tema?

Profº Dr. Roberto Kochen    A Legislação brasileira ela é muito recente, à Lei Nacional de Segurança de barragem é de 2010 à partir daí se procurou adaptar para barragem de mineração também, e hoje já existe uma tendência muito forte de não usar mais barragem pelo método montante, de modo que com  Legislação ou sem, em questão de poucos anos essas barragens vão cair em desuso e as que existem, que estão desativadas vão ter que ser descomissionadas. Elas terão que ser reforçadas quanto à drenagem, aos taludes; uma maior resistência para ter uma segurança adequada e não uma segurança de uma barragem que está desativada e abandonada.

Repórter Gabriel:        Vamos pensar um pouco mais lá na frente. Com o descomissionamento dessas barragens, a própria Vale já disse que vai fazer isso daqui pra frente, o preço do minério de ferro pode aumentar? Porque o custo vai ser maior já com as barragens existentes ou aquelas que vão ter que ser construídas. Minério de ferro utiliza-se para fabricação de aço, de carro, isso pode impactar o preço para o consumidor? Estou pensando à médio e longo prazo.

Profº Dr. Roberto Kochen:   O que vai acontecer é que irá gastar bilhões ou dezenas de bilhões para descomissionar cada barragem, mas é necessário para evitar tragédias, para evitar impactos ambientais e infraestrutura, isso aumenta o custo da Vale, agora o custo para o consumidor não deve aumentar porque minério de ferro é uma commodities, é um preço estabelecido internacionalmente e esse preço depende do mercado, então a Vale vai ficar com um custo maior, provavelmente um resultado menor mas é um custo necessário para evitar tragédias.

Repórter Raquel:                  O que dá para ser feito com esse rejeito? Ontem estava vendo uma reportagem que é possível construir talvez tijolos, blocos para construção, então queria saber o que dá para ser feito com esse rejeito, com essa composição que tem e o terreno que fica ele pode ser utilizado para quê? Ele é um terreno contaminado? Que tipo de procedimento tem que ser feito alí para que ele seja devolvido, de fato reintegrado ao meio ambiente?

Profº Dr. Roberto Kochen:   A utilização dos rejeitos, pode ser usado para algumas aplicações como tijolos, mas o volume é muito pequeno porque o custo para se fazer isso é muito alto, não dá para competir com tijolo feito pelo método normal. E os terrenos das barragens descomissionadas pode ser usado para plantações, gramados, coisas que não tenham uma carga muito elevada, isso depois de descomissionado, de se usarem medidas de drenagem, de reforço que aumente a segurança da barragem.


Repórter Aline:   O Sr. disse que esse método de alteamento à montante, que é o da barragem de Brumadinho, que rompeu, não é mais usado em países de primeiro mundo como os EUA e a legislação brasileira, segundo ele ainda é muito antiga e não está atualizada, é o que acontece no restante e em boa parte do mundo. Essa barragem pelas condições dela é realmente mais vulnerável, e o quanto é mais vulnerável? E isso por sí só já justificaria uma fiscalização mais direta, mais frequente se compararmos com outras estruturas mais seguras?

Profº Dr. Roberto Kochen:   A barragem de montante é como se fizesse uma escadinha e colocasse cada tijolinho e assentasse escada acima em lama de rejeito de mineração, então fica um resultado final com pouca resistência, pouca consistência e com uma segurança que não é o ideal, então a tendência é de se usar cada vez menos esse tipo de barragem no mundo. Já tem lugares que não usam e no Brasil a tendência também é essa e há outros métodos como jusante, método com terra compactada e principalmente a tendência atual é usar um beneficiamento de minério com empilhamento à seco, ao invés de usar água você gera um pó, ao invés de uma lama de rejeito e isso pode ser empilhado em aterros, em pilhas, é muito mais seguro, mais caro, porém comparado com custo de um desastre como esse, é muito mais interessante do que estar sujeito à multa de bilhões.

Repórter Gabriel:        Profº quem atesta segurança na barragem é uma empresa contratada pela própria mineradora. Não é contraditório? Há gargalo na fiscalização? Essa regra também precisa ser alterada? Porque senão você contrata uma empresa que não vai atestar um laudo contra você mesmo, que à contratou !

Profº Dr. Roberto Kochen:   Exato, o fato de o laudo ser contratado pela própria empresa não é o ideal porque sempre existe um viés que não é adequado. O bom seria se fosse fiscalizado pela Agência Nacional de Mineração, por outras agências e também que houvesse uma fiscalização desse tipo de laudo, nem que seja por amostragem, você ir no campo verificar se foi feito corretamente, se está completo, se está preciso, se está adequado, então é preciso uma maior fiscalização sim, porque do jeito que está sendo contratado, muitas empresas contratam por menor preço e você tem a pior qualidade do laudo em sí, o que não é adequado.

Repórter Gabriel:        Agradeço ao Profº Dr. Roberto Kochen, Diretor do Departamento de Infraestrutura e Habitat do Instituto de Engenharia, tirando todas as dúvidas conosco na Globonews, sobre segurança e aplicação desses métodos nas barragens, nesse assunto que está tomando os noticiários essa semana.