Engº Prof. Dr. Roberto Kochen - Band News – 26-01-2018 - Aspectos da Tragédia de Brumadinho - Janeiro/2018

Engº Prof. Dr. Roberto Kochen - Band News – 26-01-2018 - Aspectos da Tragédia de Brumadinho - Janeiro/2018


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Prof. Dr. Roberto Kochen: Normalmente esse tipo de problema envia alguns tipos de sinais que as coisas não estão andando bem e portanto você deve intensificar as inspeções , a leitura de instrumentação, a análise dessas leituras de instrumentação e as análises de segurança; se for necessário você já deve intervir antes que o problema aumente. É uma informação que não é usual, normalmente há sim algum indicio, algum sinal de que a barragem está com problemas de modo que essa informação da Vale deve ser esclarecida, deve ser analisada em maior profundidade.

Repórter Band News: Quando assumiu a presidência da Vale, o atual presidente “Fábio Schvartsman”, disse a seguinte frase “Mariana nunca mais”, no entanto, estamos vivendo uma tragédia ainda maior. Por quê professor, que nada mudou desde a tragédia de Mariana? O que do sistema brasileiro de mineração continua ainda obsoleto? Será que amanhã poderá ocorrer outra tragédia no estado de Minas Gerais?

Prof. Dr. Roberto Kochen: É importante, é necessário que se faça uma avaliação muito rigorosa dessas barragens que já existem, e também as que chegaram a uma situação de desativação, desativar não significa abandonar, é preciso continuar observando, inspecionando, monitorando, por quê todo ano ocorrem chuvas que podem causar movimentações, trincas, fissuras e mesmo as barragens desativadas podem apresentar problemas e podem romper como foi nesse caso.

Das barragens de mineração feitas a 30 e 40 anos atrás utilizavam técnicas de mineração que hoje não se usa na europa e EUA e são modos de se construir a barragem que são mais inseguros, essa de Brumadinho era um método a montante, é como se fossem empilhados vários tijolos pra trás, como numa escada, só que cada tijolinho daqueles fica apoiado no rejeito da mineração. Esse rejeito, por se tratar de uma lama, não oferece resistência, não oferece suporte, logo, fica uma barragem muito alta com uma condição de estabilidade limitada. Qualquer problema pode levar a uma ruptura como infelizmente foi o caso de Brumadinho.

É necessário, portanto, avaliar todas essas 450 barragens que tem em Minas Gerais, e as outras que tem no Brasil, e reforçar as que não forem construídas de forma adequada para o padrão de segurança de hoje. Quando foram construídas, na época, essas barragens eram mais baixas e foram alteadas ao longo do tempo, logo, é necessário um trabalho desse tipo para evitar outros problemas que poderão ocorrer se essas medidas não forem tomadas.

Repórter Band News: Qual é a certeza que a gente pode ter que as outras barragens não se tornarão bombas-relógios?

Prof. Dr. Roberto Kochen: É necessário ter toda uma atividade grande de inspeção, instrumentação, avaliação das leituras da instrumentação, avaliação da segurança, intervir nas barragens que não tiverem de acordo com os padrões atuais de segurança, pois, a 30, 40 anos atrás estes padrões de segurança eram mais permissivos do que hoje, hoje existem padrões de segurança muito mais rigoroso, essas barragens são mais altas e o dano é muito maior também. Você comentou que o dano de Mariana havia sido maior, em Brumadinho o dano ambiental provavelmente vai ser menor, Mariana tinha 50.000.000 m3 de lama e aqui tinha 12.000.000 m3, ou seja,  do volume de Mariana, o número de vítimas vai ser muito maior, pois, estava em uma região quase urbana, com muita presença humana o que está levando a esse número enorme de quase 300 pessoas desaparecidas, sem contar os 11 mortos já identificados (até a data de publicação da entrevista). É preciso que o governo tem que regulamentar isso, e as empresas que forem fazer essas inspeções tem que ser muito bem qualificadas por que envolve varias disciplinas da engenharia, envolve elétrica, mecânica, hidráulica, geotecnia da barragem e assim por diante. Tem que ser uma coisa muito rigorosa porquê a consequência de algum problema é muito grave, como estamos vendo agora neste caso.

Repórter Band News: Um levantamento da Confederação Nacional de Municípios apontou que o Brasil tem mais de 22.000, quase 23.000, barragens registradas no país. Os dados mais atualizados são de 2016. O levantamento aponta que a maioria, mais de 18.000 barragens estão sem qualquer informação sobre os riscos e danos potencias do rompimento que podem causar. O levantamento mais recente, de 2017, elevou a contagem de barragens não catalogadas para 24.000. Os dados foram extraídos do Sistema Nacional de Informação de Segurança de Barragens, criado em 2010. Claro que nem todas são de mineradoras, mas por quê não se tem o controle desde a construção das barragens até a manutenção delas e as vistorias anuais e de tempos em tempos?

Prof. Dr. Roberto Kochen: Em 2010 foi promulgado a Lei Nacional de Segurança de Barragens, a partir daí se estabeleceu o sistema de informação nacional de segurança de barragens e se começou a dar atenção a este assunto, pela sua importância. Agora dessas 24.000 barragens, nós temos que primeiro dividir este tipo de barragem em mineração, que são as de maior risco por causa dessa questão construtiva que eles usam que gera riscos maiores, tem as barragens de água e energia elétrica, estas últimas em geral são bem cuidadas pelos seus proprietários porquê a empresa de água vende água, então ela cuida de sua barragem senão ela fica sem receita. A de energia da mesma forma. As de mineração são as mais problemáticas, porquê você faz a barragem e depois que a mina acaba você precisa fazer aquela manutenção, aquela inspeção e a desativação e isso é um custo a mais que não gera nenhuma receita, isso por si só já é um problema. E também é necessário catalogar essas barragens e classificar por altura e risco, uma barragem de cinco metros de altura oferece um risco relativamente pequeno. Uma de dez metros oferece um risco quatro vezes maior. Uma de cinquenta metros então é muito mais alta. A de Brumadinho parece que tinha mais de 60 metros de altura, ou seja, armazena um volume muito grande material estocado então elas têm que ser avaliadas pela altura, pelo tamanho e pelo risco. As que forem de maior risco, por consequência, tem que ser monitoradas todo mês, a cada 15 dias, e tomadas as providências para aumentar a segurança delas porquê nós não podemos sofrer outro acidente como este. É uma tragédia muito grande em termos de perda de vidas.

Repórter Band News: Segundo esse mesmo levantamento citado anteriormente, Minas Gerais possui o maior número de barragens. Depois vem o estado de Alagoas e na sequência o estado do Pará. Esse levantamento coloca também o estado de Alagoas em alerta quanto o estado de algumas barragens. Voltando a Brumadinho, existe uma outra barragem na cidade agora, que está sendo monitorada pela defesa civil desde de ontem, inclusive um alarme falso foi acionado , ou seja, um boato começou pela cidade que houve o rompimento de uma segunda barragem, o que foi negado pela defesa civil , negado pelas autoridades , não houve esse rompimento mas ela segue sendo monitorada. Qual o protocolo agora da engenharia com relação ao monitoramento dessa segunda barragem?

Prof. Dr. Roberto Kochen: Essa segunda barragem tem que ser inspecionada por uma equipe de especialistas percorrendo a barragem e verificando se tem algum indicio de problemas, como manchas de umidades, trincas, transbordamento, problemas desse tipo, a instrumentação tem que ser lida, tem instrumentos que medem a pressão de água dentro da barragem, o deslocamento de terra da barragem, isso são indícios se o comportamento está adequado ou não , se está dentro dos limites ou não. Se houver algum problema, tem que ser tomado alguma medida de emergência ou não, as barragens geralmente tem vertedouros normalmente, aquelas saídas de água que você abre ou aciona para eliminar um nível da água muito excessivo, cada barragem tem uma estrutura específica então isso precisa ser analisado e dentro do possível operar essa barragem para se ter o máximo de segurança possível não deixar o nível da água subir de mais, se ela se movimentar tem que tomar uma medida de reforço estrutural e assim por diante.

Repórter Band News: O rio Paraopeba é um dos afluentes do Rio São Francisco, há um risco dessa lama chegar até o Rio São Francisco? É possível que isso aconteça ou a engenharia consegue conter de alguma forma antes que chegue ao Rio São Francisco?

Prof. Dr. Roberto Kochen: Em tese é possível que essa lama chegue ao Rio São Francisco, na prática tem uma outra barragem no rio Paraopeba, Retiro se eu não me engano, essa barragem já está alertada e preparada para receber esse rejeito e estancar o fluxo de rejeitos. É claro que esse tipo de operação, de fechar as comportas e etc., vai acumular o rejeito na barragem e ela não vai poder mais gerar energia. Isso terá que ser visto depois. É possível que com essa operação da barragem separe o fluxo de rejeitos, ou se passar algum seja muito pouco a ponto de não afetar significativamente o Rio São Francisco. Por isso que se está sendo falado hoje em dia que o impacto é menor, porquê no caso de Mariana a onda de lama chegou até o Oceano Atlântico, ela passou por uma barragem Roleta Neves, e prosseguiu na caminhada para o Oceano Atlântico, mais de 900 km. Aqui provavelmente o volume é menor e ela vai parar na barragem de Retiro. Porém, ainda é cedo para afirmar com certeza que isso deve acontecer.

Repórter Band News: É o caso por exemplo de moradores da barragem de Retiro serem levados para outro local por medida de segurança?

Prof. Dr. Roberto Kochen: é possível que isso tenha que ser feito, quando a onde de rejeitos chegar lá ela já estará muito mais espalhada e amortecida então provavelmente não será necessária uma medida tão extrema quanto essa. De qualquer forma, isto deverá ser analisado com modelos matemáticos logo a engenharia, da Vale ou de quem estiver envolvido nessa análise, tem que fazer este tipo de analise e verificar se tem necessidade de recuar ou não e até onde a onde de rejeitos irá atingir para ver se tem necessidade ou não.

Repórter Band News: Ontem o presidente da Vale chegou a dizer durante entrevista coletiva que não sabia se as sirenes foram acionadas ou não e mesmo que tivessem sido acionadas, não haveria tempo hábil para retirada dos funcionários, e até de quem estava na pousada nova estância, e de alguns moradores ali na região. Qual o protocolo na engenharia quando casos como esses ocorrem? Houve um rompimento inesperado, ou seja, não era uma barragem que estava teoricamente entre as mais perigosas e por isso estava sendo monitorada, no entanto, houve rompimento. Qual o protocolo da engenharia com relação a isso?

Prof. Dr. Roberto Kochen: O que é feito hoje em dia, dentro da lei nacional de segurança de barragens, o que se pede é para se fazer um plano de ação de emergências então no caso de uma ruptura você avalia o quanto uma onda de cheia leva para chegar em cada ponto para baixo , a jusante da barragem, e você avalia qual a altura que aquela onde irá atingir. A partir de então você avalia quais áreas terão de ser evacuadas e qual o tempo disponível. Isto é feito com modelos matemáticos sofisticados, que podem ser calculados através de microcomputadores hoje em dia, e deveria haver um plano desses para Brumadinho. Agora eu não tenho a informação de quanto tempo aquela área da Vale que era uma área administrativa, que tinha um refeitório, onde deve estar um maior numero de vítimas. Se o tempo for insuficiente, for 30 minutos ou 1 hora, pode ser que não houvesse tempo para evacuar as pessoas. Mas isso não temos informações a principio para avaliar. Em principio essas pessoas deveriam ser evacuadas assim que surgiu a notícia, o evento de ruptura da barragem.

Repórter Band News: Última pergunta rapidinho para o senhor, é possível chamar isso de acidente ou isso foi um ato criminoso?

Prof. Dr. Roberto Kochen: talvez avaliar como um ato criminoso seja um pouco extremo, mas o fato é o seguinte, esse tipo de barragem em geral da sinais de que algo não está bem. Então você precisa de uma eterna vigilância em cima deste tipo de obra, ou fazer obras de reforço que levem ela a uma condição de maior segurança muito alta para justamente evitar isso. Isso é uma questão para os técnicos e judiciário resolverem, mas normalmente em um caso como esse você consegue ter sinais prévios que algo não está bem e tomar providencias para evitar uma ruptura, uma tragédia como essa.