Jornal da Record - Tragédia de Brumadinho - 26-01-2019 - Prof. Dr. Roberto Kochen

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Repórter Record : O lema da Vale era Mariana nunca mais e agora a gente vive Brumadinho. Nós vamos falar agora com o Engº  Roberto Kochen que é um especialista em estruturas e fundações em obras de infraestrutura e diretor do Instituto de Engenharia. Boa noite Roberto, primeira pergunta: Houve falha no monitoramento? A Vale diz que o último monitoramento foi em 10 de janeiro. Houve falha de olhar dia a dia o que acontecia nessa barragem?


Profº Dr. Roberto Kochen: Esse tipo de barragem necessita de um monitoramento intenso e frequente por ser de rejeito de mineração, e eles são líquidos e se houver uma ruptura como ocorreu a consequência é muito séria. A Lei não estabelece uma periodicidade mínima para esse monitoramento, mas a boa técnica indicaria monitoramento mensal, quinzenal, semanal ou até mesmo diário, principalmente se tivesse sido observado indícios de mau comportamento como trincas, fissuras.


Repórter Record: Tem tecnologia para descobrir uma fissura ainda no começo ou uma mancha de água, para descobrir um desnível. Tem tecnologia há tempo de salvar vidas?


Profº Dr. Roberto Kochen:   Isso é possível porque pode monitorar inclusive via satélite com fotos que te dá uma visão diária do que está acontecendo nessas estruturas.


Repórter Record: Essa barragem é comum na mineração no Brasil e no exterior me parece não mais exatamente pelo risco. Porquê as mineradoras brasileiras são adeptas à esse tipo de barragem que é construída sobre o sedimento do próprio rejeito ?


Profº Dr. Roberto Kochen:   A barragem de Brumadinho começou em 76, a mais de 40 anos e naquela época se usava esse método de construção que é o de montante. É como se tivesse uma escadinha de tijolos e cada tijolo assentado em cima da lama, que está líquida, e quando chega em cima, tem uma barragem alta com volume grande de rejeito de mineração.


Repórter Record: Isso não é usado em outros lugares ?


Profº Dr. Roberto Kochen:   Deixou de ser usado depois de alguns acidentes nos EUA e Europa, então hoje não é mais usado. Aquí no Brasil ainda existem barragens desse tipo sendo feitas e existem as antigas e naturalmente como estão no limite de segurança, nós precisamos reforça-las para não termos acidentes como esse.